O número de habitantes em todo mundo tende a crescer. No Brasil não difere, conforme o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) a população nos anos 2000 era de em torno de 169 mil pessoas, já nos anos 2010 se teve um salto para 190 mil, sendo um aumento populacional de 12,32%. Tornando evidente a preocupação de produção de alimentos que acompanhe esse crescimento, já que fisicamente a área plantada não consegue aumentar na mesma proporção.

Evitar a escassez de alimentos é um dos grandes problemas modernos, para resolver isto o foco na produtividade se tornou indispensável. O desenvolvimento científico e tecnológico fez com que a criação de algumas técnicas possibilitou o aumento da produtividade.

Algo que já demonstra resultados, pois, conforme a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) de 2000 para 2010 houve um crescimento da produção de grãos de 79,76%, enquanto a área de produção cresceu apenas 25,36%. Dentre essas técnicas têm o controle fitossanitário, através da tecnologia de aplicação. 

A Tecnologia de Aplicação é o conhecimento sobre defensivos agrícolas, fertilizantes, adjuvantes, suas formulações, processo de pulverização, ambiente e o alvo para se ter  pulverização efetiva.

A pulverização é realizada para o controle de pragas, plantas daninhas e doenças que podem ter na cultura e se não eliminadas prejudicam o desenvolvimento da plantação. Na agricultura, a pulverização é geralmente utilizada para distribuir produtos agroquímicos, nutrientes ou fertilizantes de uma maneira geral. Ela pode ser realizada de diferentes formas, como por terra ou por via aérea, sendo essa última geralmente mais utilizada em áreas de grande extensão.

Os produtos, quase sempre, são comprados concentrados e precisam ser diluídos. Essa mistura, chamada calda é aplicada por gotas geradas pelo pulverizador para atingir a planta. O pulverizador é uma das principais ferramentas de trabalho no campo. Afinal, garante a produtividade por eliminar pragas, doenças e insetos.

DIFERENÇA ENTRE PULVERIZAÇÃO E APLICAÇÃO

A Embrapa, em seus estudos, apresenta que o desenvolvimento de equipamentos e ferramentas para aplicação dos primeiros herbicidas teve seu ápice entre a década de 1860 e a de 1900. Apesar de ser um tema que a maioria das pessoas já teve um contato prévio, por ser uma técnica antiga, se faz necessário ter uma diferenciação conceitual neste ponto.

Essa diferenciação é entre a pulverização e a aplicação do defensivo agrícola:

  • Pulverizar: é o processo mecânico onde o principal objetivo é produzir gotas com o máximo de cobertura possível com um volume apropriado seguindo as recomendações contidas nos receituários agronômicos.
  • Aplicar: é um processo pelo qual se coloca o produto químico ou fertilizante sobre o objetivo (alvo), ou seja, é a deposição das gotas com tamanho e densidade adequados ao objetivo proposto.

TIPOS DE PULVERIZAÇÃO

Uma das principais escolhas para garantir uma boa pulverização é o equipamento que será utilizado. No mercado existem diversos modelos, a análise correta e a escolha certa fazem com que se tenha menos custo com o resultado mais eficaz possível.

Dentre os pontos que se deve ter atenção para uma boa escolha é a área que será pulverizada, topografia do local, espaçamento entre o plantio e a distância entre o ponto de pulverização e de reabastecimento de defensivo ou fertilizante agrícola.

No mercado existem inúmeros tipos de pulverizadores, sendo os principais:

  • Costal Manual: Ao optar por este modelo tem que levar alguns pontos em consideração, como a alça que devem ser largas e maiores de 5 centímetros para que não machuque o usuário. Além de que o material da alça deve ser plástico ou nylon para facilitar a higienização. Enquanto o tanque, o seu modelo deve permitir que seja feita a limpeza completa após a pulverização. A tampa do tanque também deve ser larga para que na hora do preparo não se tenha derrame. Por último, o peso total do pulverizador deve ser inferior a 25 kg para evitar a sobrecarga do operador.
  • Pistola de Pulverização de Pressão: é uma pistola que através de ar comprimido gerado manualmente ou de forma elétrica esguicha o defensivo na cultura. Este equipamento é normalmente utilizado em espaços pequenos como hortas e pomares, não sendo viável seu uso em grandes escalas devido ao baixo nível de uniformidade e custo de trabalho.
  • Pulverizador de Barra: é um dos mais comuns e é mais utilizado para grandes lavouras. Nele se tem um sistema de barra com várias pontas de pulverização montadas em um trator. Nesse sistema as barras ficam paralelas ao solo, assim se faz necessário ter um sistema que regule a altura para que se adapte aos diferentes estágios da plantação.
  • Turbo Pulverizadores: é o tipo mais indicado para culturas arbóreas, em que se tem grandes copas. Este normalmente é tracionado e com o transporte se tem a geração de uma corrente de ar que encaminha as gotas aos bicos hidráulicos. Sua principal característica é o ventilador que realiza o processo de envio das gotas, esse ventilador pode ser acionado pela energia TDP ou do motor do pulverizador. Independente do modelo, todo ventilador deve ter uma forma de desligá-los para que durante a preparação não se tenha percalços e se consiga o menor consumo possível.
  • Aéreo Pulverizadores: na pulverização aérea se tem três equipamentos que se destacam, são eles: drones, helicópteros e aviões. O uso de drones normalmente são para pulverização de locais específicos ou de difícil acesso. Helicópteros proporcionam menor velocidade em relação as aeronaves agrícolas e proximidade da plantação. Por último os aviões, indicados para grandes áreas com particularidades a respeito da segurança do piloto que nos outros tipos de pulverização não se tem.

VOLUME DE PULVERIZAÇÃO

Um dos principais aspectos da pulverização é o volume. O volume de pulverização é consequência de uma boa aplicação e está relacionada com fatores como alvo, área, espectro de gotas, tipos de pontas e o tipo de produto aplicado.

Tamanho das gotas

O processo de geração de gotas mais comum é a passagem de um líquido com pressão através de um pequeno orifício gerando um espectro de gotas de diferentes tamanhos.

Existem diversas formas de medir o tamanho dessa gota. Entretanto, o mais utilizado é com base na norma ASABE S572.2. Ela analisa um conjunto de parâmetros como a Amplitude Relativa, o Diâmetro Mediano Numérico (DMN) e o Diâmetro Volumétrico Acumulado (DMV) de 10%, 50% e 90%. O DMV indica o diâmetro de gota que separa o volume pulverizado em duas metades, sendo 50% do volume das gotas menores e 50% das gotas maiores.

A norma ASABE S572.2 classifica o tamanho das gotas em:

  • Muito fina;
  • Fina;
  • Média;
  • Grossa;
  • Muito Grossa;
  • Extremamente Grossa;
  • Ultra Grossa.

A determinação do tamanho das gotas é essencial para não ocorrer a perda do produto. Por exemplo, gotas mais grossas oferecem uma boa quantidade de produto na planta. Contudo, quando se tenta atingir o interior da planta o ideal são gotas mais finas.

Pontas e Jatos de Pulverização

As pontas ou bicos de pulverização são uma das partes mais relevantes do pulverizador e interferem diretamente na eficácia do processo para que o defensivo, ou fertilizante haja da melhor forma possível. As pontas são responsáveis por determinar a vazão, tamanho das gotas, distribuição das gotas na planta e interferem diretamente na deriva.

A deriva é o processo que a gota se desvia do alvo, tendo assim a perda de produto, contaminação do meio ambiente e até a intoxicação de quem tem contato com ela. Entre os problemas ocasionados pela deriva tempos:

  • Subutilização do equipamento;
  • Dosagem menor do produto, fazendo com que seja necessário uma reaplicação assim tendo baixo rendimento e custos mais altos;
  • Danos a culturas sensíveis adjacentes; e
  • Contaminação de culturas de alimentos, chegando a perca de colheita.

 A escolha da ponta incorreta e a falta de manutenção no pulverizador são um dos principais fatores para que a deriva ocorra.

A deriva é o processo que a gota se desvia do alvo, tendo assim a perda de produto, contaminação do meio ambiente e até a intoxicação de quem tem contato com ela. Entre os problemas ocasionados pela deriva tempos:

  • Subutilização do equipamento;
  • Dosagem menor do produto, fazendo com que seja necessário uma reaplicação assim tendo baixo rendimento e custos mais altos;
  • Danos a culturas sensíveis adjacentes; e
  • Contaminação de culturas de alimentos, chegando a perca de colheita.

 A escolha da ponta incorreta e a falta de manutenção no pulverizador são um dos principais fatores para que a deriva ocorra.

A classificação da ponta de pulverização é impactada pela relação do tipo de gotas que se espera e o jato que precisa para consegui-la.

Tamanho de Gotas Muito Finas – Fina – Médias:

  • Jato Cônico: As pontas podem ser cheias ou vazias. Para ter um jato cheio se tem um orifício na ponta em que passa a calda preenchendo o jato. O jato vazio produz gotas mais finas, em torno de 100 micras, com maior poder de penetração e cobertura, mas se tem maior chance de deriva e evaporação. Já o jato cheio produz gotas ligeiramente maiores.
  • Jato Plano: A ponta para poder gerar esse jato tem um orifício elíptico. Este modelo é subdividido em plano simples, em que não se tem mudança na pressão, e o plano de uso ampliado que através da variação de pressão se tem de gotas extremamente finas ou gotas mais grossas, cerca de 200 micras.

Tamanho de Gotas Grossas – Muito Grossas – Extremamente Grossas – Ultra Grossas:

  • Jato Plano de Pré-Orifício: para esse tipo de jato a ponta deve ter um orifício mais fino, antes do orifício final, para poder ter um controle da pressão dos líquidos. Resultando numa diminuição do volume de gotas com tamanho de 350 micras às 600 micras gerando, assim, menor deriva. Entretanto, pode ocorrer escorrimento de gotas.
  • Jato Defletor ou Impacto: a ponta possui uma parte chamada anteparo onde o líquido se choca e se tem um desvio do jato. Esse modelo gera gotas finas a grossas dependendo da pressão e do fabricante.
  • Pontas de Indução de ar: são pontas que possuem orifícios para incorporar ar aos líquidos. São uma das mais eficazes na tentativa de evitar deriva, já que graças às bolhas se tem um volume de saída menor.

COMPOSIÇÃO E PREPARAÇÃO DA CALDA

A calda é o resultado da preparação dos defensivos agrícolas ou do fertilizante para a aplicação direta. Esse processo executado corretamente com outros fatores, ajuda a garantir se a pulverização será efetiva ou não.

Utilização de Equipamento de Proteção Individual (EPI)

O primeiro cuidado que se deve ter na preparação da calda é o uso correto de Equipamentos de Proteção Individual (EPI ‘s). O produto fitossanitário, composto de agentes químicos ou biológicos para realizar o controle de pragas através da pulverização, pode conter substâncias que levam a intoxicação rápida ou gradual do aplicador. Por isso o uso de proteção individual é imprescindível.

Vale ressaltar que a descrição exata dos equipamentos que o aplicador deve estar trajando são prescritas pelo engenheiro agrônomo ou por um técnico de segurança do trabalho. Além de que os defensivos agrícolas apresentam quais EPI ‘s são necessários em sua embalagem. Podemos destacar os EPIs mais utilizados são: macacão, avental, luvas, protetor facial, máscara, óculos de proteção e touca árabe.

Outro ponto importante é que a Norma Regulamentadora n°31 que trata sobre a Segurança e Saúde do Trabalho veda o uso de roupas pessoais na pulverização. Além de prever que o empregador deve disponibilizar ao empregado rural local para banho, após a aplicação e se responsabilizar pela descontaminação das vestimentas e equipamentos.

Qualidade de água

Considerando que o aplicador já está com todos os equipamentos de proteção se parte para a preparação da calda. A água é um solvente universal devido a sua composição química, esta pode solver substâncias de estado líquido, sólido e gasoso. Por esse motivo, é um dos solventes mais utilizados na preparação da calda.

Um dos principais problemas a respeito da água é a presença de sedimentos ou matérias orgânicas que se tem devido ao local de origem dela. Esse problema pode não só afetar o desempenho do defensivo como também levar ao entupimento do pulverizador.

Formulações

As formulações de um produto fitossanitário são misturas entre agentes ativos e inativos para que se gere um produto seguro, simples de ser usado e eficaz. Conforme a NBR 12.697/2004 se tem 82 terminologias de agrotóxico, como, por exemplo: suspensão de encapsulado, granulado, tablete para aplicação direta, pó para tratamento a seco de sementes, aerossol, etc.

 A NBR divide as formulações em seis categorias, como: as formulações para diluições em água, diluição em solventes orgânicos, aplicação direta, tratamento de sementes e formulações especiais.

 Adjuvantes

Um adjuvante pode ser definido como uma substância química adicionada a calda para esta ter uma melhora no seu agente ativo ou melhore sua característica de aplicação. Os adjuvantes são divididos em dois grupos sendo os modificadores de superfície dos líquidos (surfatantes) ou os aditivos.

Os surfatantes são classificados em:

  • Espalhantes: são produtos que proporcionam o espalhamento completo da substância pela superfície da planta.
  • Umectantes: substâncias que retardam a evaporação fazendo com que o produto fique mais tempo na planta.
  • Aderentes: aumentam a aderência do produto fitossanitário com a planta, diminuindo assim a hipótese de escorregar ou ser lavado da planta.
  • Emulsificantes: eles permitem que se tenha uma suspensão entre dois líquidos que são imiscíveis.
  • Dispersantes: seu objetivo é evitar a aglomeração de partículas, fazendo com que se mantenham suspensas e estáveis por mais tempo.
  • Detergentes: são utilizados para remover sujeiras das folhas aumentando o contato do produto com a folha.

Os principais aditivos são:

  • Óleos: eles dissolvem as gorduras presentes nas membranas celulares eliminando barreiras que dificultam a absorção de herbicidas.
  • Sulfato de amônio: os íons de amônio têm ação sobre a cutícula, rompe ligações e abre caminho para absorção do defensivo agrícola.
  • Ureia: também age rompendo ligações permitindo a absorção do produto fitossanitário.

Solo

Atenção as características fundamentais do solo são essenciais para se ter uma pulverização efetiva. A topografia é determinante para a escolha do equipamento. Por exemplo, uma topografia muito acidentada pode dificultar a utilização de máquinas tratoradas. 

Outro ponto relacionado ao solo que se deve ter atenção é a textura. Normalmente, solos que são mais argilosos tem maior quantidade de coloides dificultando a ação de princípios ativos de alguns defensivos fazendo com que a dosagem seja maior que em solos arenosos.

Patógeno

Temos o elemento patogênico como sendo aquele que causa algum transtorno para a planta, podendo ser uma praga como insetos e ácaros ou um causador de doenças como vírus ou bactérias. 

Casos de insetos, como lagartas, sendo patogênicos de um tamanho relativamente maior que as bactérias, a chance do defensivo atingir o alvo mesmo com aplicação desuniforme é maior. Já os problemas causados por vírus ou bactérias necessitam que a aplicação seja extremamente uniforme.

É interessante se avaliar também a mobilidade do patogênico, quando o agente é móvel a chance que ele entre em contato com o defensivo é maior. Diferente do agente imóvel que deve ser atingido com precisão.

CUIDADOS E MANUTENÇÕES NECESSÁRIAS

Para que se possa ter uma otimização da pulverização se tem alguns cuidados e manutenções que são necessárias, tanto no momento de pulverização quanto na manutenção do equipamento.

O primeiro cuidado é a limpeza, sendo ela de extrema importância para garantir a saúde dos trabalhadores, pois, qualquer resíduo agroquímico que permaneça nos pulverizadores pode resultar em contaminação. Além disso, estes resíduos podem acabar se misturando com o produto a ser pulverizado posteriormente, podendo assim prejudicar o desempenho do mesmo.

 A regulagem e calibração também são fundamentais, elas têm o objetivo de preparar o pulverizador para atingir o resultado desejada e verificar se ele está de fato, fazendo aquilo que foi programado, garantindo que você utilize as quantidades corretas de produto e que elas serem aplicadas nas condições planejadas.

O processo de Regulagem é fundamental para garantir que os seguintes itens estejam adequados:

  • Filtros limpos;
  • Mangueiras sem furos ou dobradas;
  • Regulador de pressão com componentes não gastos;
  • Bomba sem vazamento e lubrificadas; e
  • Bicos sem estar gastos e diferindo no máximo 10% do apresentado pelo fabricante.

A troca de bicos e peças é indispensável para evitar que partes defeituosas comprometam o processo de pulverização, os bicos devem ser trocados na frequência recomendada pelo fabricante.

Bicos desgastados geram prejuízo principalmente porque acabam gerando desperdícios de produtos. Para evitar isso, eles devem ser substituídos quando a vazão estiver se desviando, no máximo, 10% em relação à vazão nominal, ou seja, os bicos merecem ainda mais atenção quando se trata de manutenção de pulverizadores.

Se deve ter atenção inclusive para escolher o horário de pulverização, pois, acontece que as características do clima, como temperatura, velocidade do vento, umidade relativa do ar (URA) e até a luminosidade, influenciam na aplicação por pulverização, onde a mesma deve ocorrer em uma temperatura abaixo de 30 °C, com velocidade do vento entre 3 e 10 km/h e umidade relativa do ar acima de 55%. Fora desses padrões, a longevidade da gota na superfície foliar é drasticamente reduzida.

Uma ferramenta muito utilizada pelos agricultores para analisar essas condições é a tabela DELTA T (ΔT  °C). A evaporação é determinada por dois fatores, o percentual de Umidade Relativa (%UR) e a temperatura (T  °C). A tabela ΔT determina a taxa de evaporação.

Existem várias formas para determinar esse indicador entre eles é o “Par Psicométrico” em que se utiliza dois termômetros, um de bulbo úmido através do uso de água destilada para umedecer e o bulbo seco. Sendo o cálculo:

∆T = temperatura do termômetro de bulbo seco – a temperatura do termômetro de bulbo úmido

Considera-se que o valor ideal de ΔT para a pulverização é quando o resultado dessa diferença está entre 2 e 8.

Por último, temos o cuidado com a altura da barra de pulverização, já que esta deve estar com a sua altura devidamente regulada, para não haver desperdício, na hora do cruzamento dos jatos, a altura deve ser calculada baseado no ângulo do bico e distância entre os bicos, para que haja esse controle em uma área total. Caso não tenha o cruzamento dos jatos, não terá uma aplicação total na área de contato, com isso não haverá um controle eficiente.